KashBI

Como fazer uma previsão de tesouraria: passo a passo e exemplo

Guia prático para construir uma previsão de tesouraria a seis meses numa PME, com horizonte, recebimentos na data real, pagamentos, impostos e uma tabela certa.

Fazer uma previsão de tesouraria que sirva mesmo não é um exercício de contabilidade, é uma ferramenta de gestão. Se você gere uma PME de dez, cinquenta ou cento e cinquenta pessoas, o que precisa saber à segunda-feira de manhã é quanto dinheiro vai ter dentro de seis semanas e dentro de seis meses, com que recebimentos conta e que pagamentos ainda vêm por surpresa. Sem essa clareza, qualquer decisão (contratar, investir, atravessar um trimestre fraco) toma-se às cegas.

A ideia é simples. Parte do saldo real que tem hoje nos bancos, soma o que vai receber nas datas em que vai mesmo receber, retira o que vai pagar nas datas em que vai mesmo pagar, e observa o saldo mês a mês. O cuidado está em não inventar datas de recebimento, em não esquecer os impostos trimestrais nem o subsídio de Natal, e em rever a previsão todas as semanas para que acompanhe a realidade.

Este guia percorre o processo passo a passo, com uma PME fictícia de engenharia industrial, vinte e quatro pessoas, 1,8 milhões de euros de volume de negócios anual. No fim tem a tabela completa a seis meses e os erros mais comuns da primeira versão.

O que entra numa previsão de tesouraria (e o que fica de fora)

Entra tudo o que mexe com o banco: recebimentos de clientes, pagamentos a fornecedores, salários, renda, prestações de empréstimos, impostos, seguros, investimentos e extraordinários. Não entra a demonstração de resultados: uma fatura emitida em novembro que recebe em fevereiro é tesouraria de fevereiro, não de novembro. Essa distinção é a que explica como uma empresa com lucro fica sem caixa. Amortizações, provisões e reclassificações também ficam de fora: só conta o que entra ou sai da conta bancária. Se quer rever a diferença com calma, o texto sobre o que é cash flow numa empresa desenvolve-a.

Passo 1: escolha o horizonte e o nível de detalhe

O horizonte depende da utilidade que lhe quer dar. Para a gestão diária e decisões operacionais, treze semanas com detalhe semanal é o padrão: chega para ver um trimestre inteiro e detetar um buraco antes de ele chegar. Para decisões de investimento, contratação ou negociação com o banco, seis a doze meses com detalhe mensal.

Normalmente convive-se com duas vistas: semanal nas próximas treze semanas e mensal até ao fim do ano ou do exercício seguinte. Quanto mais perto, maior o detalhe; quanto mais longe, mais agregado. Se vai viver no curto prazo semana a semana, o guia específico da previsão a 13 semanas traz o formato e os critérios de corte.

Passo 2: parta do saldo real do banco, não do contabilístico

O primeiro dado da previsão é o saldo que tem hoje nos bancos, somado em todas as contas à ordem. Esse valor dá-o o banco, não a contabilidade. Se a empresa tem várias contas, várias sociedades ou uma linha de crédito com utilização parcial, faz uma linha por conta e soma no fim.

Uma armadilha clássica: o saldo contabilístico e o saldo bancário quase nunca coincidem. Pode haver cheques emitidos ainda por apresentar, remessas em trânsito, lançamentos de ontem por conciliar ou movimentos antigos a arrastar. Antes de começar, concilie os bancos e ancore a previsão no saldo real. O desfasamento entre saldo bancário e contabilístico no Odoo merece capítulo próprio e é uma das razões mais comuns para uma previsão parecer desacertada sem o estar.

Passo 3: recebimentos pela data real, não pela data da fatura

Aqui joga-se metade do jogo. A data da fatura e a data em que recebe de verdade quase nunca coincidem. Se vende a empresas, com condição de 30 dias e clientes a pagarem a 60, 75 ou 90 dias reais, meter os recebimentos na coluna do mês da fatura dá-lhe uma previsão bonita que não se vai cumprir.

O que torna a previsão útil é calcular, cliente a cliente ou por grupo de clientes, quanto tempo cada um demora de facto a pagar. Se tem quatro clientes grandes e vinte mais pequenos, olhe para os últimos doze meses e tire o prazo médio real dos quatro grandes um a um; os restantes agrupa com um prazo médio comum. Depois aplica esse prazo a cada fatura emitida pendente e coloca o valor na coluna do mês de recebimento previsto.

Para as vendas futuras ainda por faturar, faz o mesmo com o calendário de faturação previsto mais o prazo médio. Para as faturas vencidas em atraso, decida caso a caso e peque por prudência. Dois números ajudam a estabilizar o modelo: o PMR (prazo médio de recebimento) e a percentagem histórica de incobráveis (se 2% nunca chega, aplique essa redução como almofada). Quando o atraso define o negócio, os cenários de tesouraria para PME quando um cliente paga tarde servem para montar a versão “cliente grande atrasa 60 dias” sem partir o modelo base.

Passo 4: pagamentos, um a um

Os pagamentos conhece-os melhor do que os recebimentos, mas há sempre algum que escapa. A lista mínima é esta:

Passo 5: extraordinários e saldo mínimo de segurança

Antes de fechar, duas coisas. A primeira, os extraordinários: compra de equipamento, obra no armazém, pagamento de uma indemnização, uma aquisição. Qualquer coisa fora do dia a dia que vá mexer com a caixa vai no mês correspondente, em linha própria para não contaminar o ritmo normal.

A segunda, o saldo mínimo. Decida qual é o colchão abaixo do qual não quer cair. Uma PME saudável costuma usar o equivalente a um mês de pagamentos operacionais (salários, fornecedores, renda, prestações); um mês e meio ou dois se o ciclo de recebimento é longo. É a linha vermelha da previsão: se algum mês fecha abaixo, há que mover alguma coisa antes de lá chegar.

Exemplo: Luminia Engenharia, seis meses, mês a mês

Luminia Engenharia Lda é uma PME de engenharia de manutenção industrial. Vinte e quatro pessoas, 1,8 milhões de euros de volume de negócios anual, quatro clientes grandes que pagam a 55 dias reais e cerca de vinte mais pequenos a 35. Faturação mensal estável, com a quebra habitual de janeiro. Saldo bancário em 1 de novembro de 2026: 68.400 €. Subsídio de Natal em dezembro. Como o volume de negócios ultrapassa 650.000 €, está em regime mensal de IVA; retenções de IRS e Segurança Social a 20 de cada mês; pagamento por conta de IRC em dezembro. Compra prevista de um equipamento de inspeção em março por 18.000 €. Saldo mínimo fixado pela gerência: 60.000 €.

Rubrica Nov Dez Jan Fev Mar Abr
Saldo inicial 68.400 92.100 49.700 41.200 68.300 75.900
Recebimentos de clientes 155.000 145.000 110.000 165.000 170.000 150.000
Salários e SS 52.000 52.000 52.000 52.000 52.000 52.000
Subsídio de Natal 0 52.000 0 0 0 0
Fornecedores 48.000 42.000 38.000 55.000 60.000 50.000
Renda e seguros 6.800 6.800 6.800 6.800 6.800 6.800
Prestação empréstimo 4.200 4.200 4.200 4.200 4.200 4.200
IVA mensal 14.500 15.200 11.800 14.400 15.800 15.500
Retenções IRS e SS 5.800 5.600 5.700 5.500 5.600 5.700
Pagamento por conta IRC 0 9.600 0 0 0 0
Compra equipamento 0 0 0 0 18.000 0
Saldo final 92.100 49.700 41.200 68.300 75.900 91.700

O ponto mais baixo fica em janeiro, 41.200 €, abaixo do mínimo de 60.000 € fixado pela empresa. O essencial do exemplo é que a quebra de janeiro aparece em novembro, com dois meses de antecedência, e há tempo para reagir: antecipar um recebimento grande, adiar a compra do equipamento, pedir uma linha de curto prazo com margem. É para isso que serve a previsão.

Passo 6: revisão semanal, previsto contra real

Uma previsão que não é revista deixa de servir em três semanas. Marque um dia fixo (segunda-feira de manhã funciona), pegue no extrato bancário da semana passada e compare com o que tinha previsto. O que costuma acontecer:

O valor da revisão está em apontar porque falhou. Se todas as semanas escreve duas linhas com «recebimento X atrasado por motivo Y», ao fim de três meses tem o mapa de verdade do ciclo de cobrança.

Os erros mais comuns

Há oito tropeços que se repetem em quase todas as PME:

  1. Marcar os recebimentos no mês da fatura e não no do recebimento real. A previsão fica mais bonita e falha todos os meses.
  2. Esquecer os impostos trimestrais. O IVA de fevereiro não se nota até cair.
  3. Não incluir o subsídio de Natal nem o de férias. Dezembro e junho são os meses que mais previsões partem.
  4. Partir do saldo contabilístico e não do bancário. Se os bancos não estão conciliados, o erro arrasta-se da primeira coluna.
  5. Misturar sociedades do grupo. Se tem duas empresas que faturam entre si, meter os valores cruzados dos dois lados infla receitas e despesas e esconde a realidade. As operações intra-grupo tratam-se à parte.
  6. Não atualizar o prazo de recebimento quando um cliente muda de ritmo. Se há três meses um cliente passou de 45 para 75 dias, altere o pressuposto.
  7. Querer a previsão ao cêntimo. É uma estimativa. Com a centena ou o milhar de euros chega para decidir.
  8. Não rever. Fazer a previsão uma vez por mês e olhar para ela no mês seguinte é quase igual a não a fazer.

Quando sair da folha de cálculo

Enquanto a empresa cabe num separador de Excel, a folha funciona. Quando começam a aparecer várias contas bancárias, duas ou três sociedades, centenas de faturas por mês e clientes grandes cujo calendário mexe com o saldo, a folha fica frágil: todos os meses copia-colar extratos, atualizar fórmulas, rezar para que ninguém tenha mexido numa linha e receber a fotografia tarde. Em até onde chega a previsão em Excel encontra uma lista honesta do que a folha ainda dá e do que já não.

Acima dessa dimensão, convém olhar para ferramentas que leiam os dados que já tem. Se trabalha com Odoo, o natural é que o programa de tesouraria leia as faturas emitidas e recebidas com vencimento, os pagamentos, os extratos conciliados, as prestações e as sociedades do grupo, e projete em cima disso. Montar a previsão sobre o Odoo tem nuances entre Community e Enterprise, mas é a via curta quando os dados já vivem lá.

O Kashbi é a peça que construímos para esse caso: lê o Odoo (uma ou várias sociedades), mostra o dinheiro real de todos os bancos ao dia, projeta recebimentos e pagamentos pelos seus vencimentos, inclui impostos e prestações, e avisa antes de a caixa se aproximar do mínimo que fixou. Abre em breve.

Perguntas frequentes

Com que horizonte deve a PME fazer a previsão de tesouraria?

Para a gestão do dia a dia, treze semanas com detalhe semanal. Para decisões de investimento, contratação ou negociação bancária, de seis a doze meses com detalhe mensal. O útil é ter as duas vistas e rever a semanal todas as segundas-feiras; a mensal, ao fecho de cada mês.

Como meto o IVA na previsão se ainda não sei o valor do trimestre?

Estime o IVA liquidado com a previsão de vendas e o dedutível com a de compras, e projete a diferença como valor a pagar ou a receber. Na primeira versão, aproxime com a percentagem média dos últimos quatro trimestres. Depois, mês a mês, aperte com os valores reais.

Devo usar a data da fatura ou a data prevista de recebimento?

Sempre a data prevista de recebimento. A data da fatura serve para contabilidade e para medir vendas, não para saber quanto dinheiro vai ter. Se os clientes grandes andam a 60 ou 75 dias, modelá-los a 30 desenha uma tesouraria que não existe.

Com que frequência se deve rever a previsão?

Uma vez por semana a vista a treze semanas, para corrigir desvios e mover previsões de recebimento; uma vez por mês a vista a seis ou doze meses, ao fecho do mês contabilístico. Mais caro do que fazer é deixar de olhar.