KashBI

IVA e pagamentos por conta na previsão: não falhar o trimestre

Como integrar o IVA, as retenções e os pagamentos por conta na previsão de tesouraria para que o trimestre não deixe a sua PME sem caixa.

Há um momento muito concreto em que uma PME bem gerida fica sem ar. Chega 25 de maio, o contabilista fecha a declaração periódica do IVA do primeiro trimestre, e a conta bancária leva um corte que no dia anterior não se via. O IVA que a sua empresa cobrou aos clientes nunca foi dinheiro seu. Foi receita do Estado que você guardou durante dois meses.

Quase todos os sustos de tesouraria numa PME começam aqui. Uma previsão de caixa sem IVA e sem pagamentos por conta não serve de muito, por mais bonito que seja o gráfico.

Este artigo é sobre resolver isso. Como estimar o IVA mês a mês, como reservar o valor sem dor e como encaixar as retenções, os pagamentos por conta de IRC ou IRS e a Segurança Social no plano, para que o trimestre deixe de ser um evento.

O erro clássico, contar o IVA recebido como caixa própria

A sua empresa fatura 10.000 € + 2.300 € de IVA. No banco entram 12.300 €. Na previsão aparece 12.300 €. Dois meses depois, quando chega a declaração periódica, o saldo cai um valor que lhe andou a mentir durante semanas.

O IVA liquidado é uma dívida com data certa. Você cobra em nome da Autoridade Tributária. Quanto mais a empresa cresce, maior é a pilha de IVA guardada, e maior o golpe se nada estiver separado.

Regra simples:

Uma previsão séria coloca o IVA líquido como pagamento futuro desde o dia em que emite a fatura, não desde o dia em que se lembra.

Que impostos entram na previsão de uma PME em Portugal

As datas mudam conforme o regime (mensal ou trimestral), o volume de negócios do ano anterior e o calendário fiscal da sua empresa. Confirme sempre com o seu contabilista e com o calendário oficial do Portal das Finanças, que é a única fonte que nunca fica desatualizada. O que segue é o típico para uma PME em regime trimestral de IVA, com ano fiscal civil.

Imposto Documento Periodicidade típica Vencimento
IVA (regime trimestral) Declaração periódica Trimestral Entrega até dia 20 do segundo mês seguinte, pagamento até dia 25
IVA (regime mensal, volume ≥ 650.000 €) Declaração periódica Mensal Entrega até dia 20 do segundo mês seguinte, pagamento até dia 25
Retenções IRS e IRC Guias de retenção Mensal Dia 20 do mês seguinte
Pagamentos por conta IRC PPC Três prestações 31 de julho, 30 de setembro e 15 de dezembro
Pagamentos por conta IRS (empresário em nome individual) PPC Três prestações 20 de julho, 20 de setembro e 20 de dezembro
IRC – pagamento final (Modelo 22) Modelo 22 Anual Até 31 de maio
Segurança Social (empresa e trabalhador) DMR Mensal Até dia 20 do mês seguinte

Se um prazo cair ao sábado, domingo ou feriado, transita para o dia útil seguinte. Em 2026 há casos típicos: a declaração do 2.º trimestre e a de junho (regime mensal) são entregues até 20 de setembro, por tolerância do artigo 41.º do CIVA, e agosto fica sem declaração periódica. O regime especial do IVA de caixa existe para empresas abaixo de certo volume e permite entregar o IVA só depois de o receber, mas tem limites e opção vinculativa. Discuta com o seu contabilista se compensa.

Fonte oficial para a agenda: calendário fiscal e obrigações de pagamento no Portal das Finanças.

Como meter isto na folha de cálculo (ou no software que usar)

Dois passos. Se fizer os dois, o trimestre deixa de doer.

1. Reservar o IVA todos os meses, mesmo quando o pagamento ainda não chega.

No fecho de cada mês calcula o IVA líquido do período (liquidado menos dedutível) e passa-o para uma linha à parte da previsão com o nome “IVA reservado”. Não é um gasto, é dinheiro marcado como indisponível. Se puder, mantenha-o numa conta ou subconta separada. Quando chega o dia 25, a transferência é só executar.

2. Agendar o pagamento estimado na data real.

Na linha de “impostos” da previsão semanal ou mensal, abre uma célula para cada vencimento do ano com uma estimativa. Para o IVA, uma estimativa de arranque é a sua margem média sobre vendas (se o IVA dedutível costuma ser 40% do liquidado, reserve 60% do IVA cobrado). Afina a cada mês.

Se usa Odoo, os dados existem todos: faturas emitidas e recebidas com os códigos de IVA, pagamentos conciliados, extratos bancários. O que o Odoo não faz é mostrar a conta de IVA de amanhã na linha do tempo da sua tesouraria. O Odoo Community não tem previsão de caixa em frente. A demonstração de fluxos de caixa do Odoo Enterprise olha para trás. A linha fiscal da previsão fica a cargo de uma folha de cálculo ou de uma ferramenta de tesouraria.

É aqui que o Kashbi tira trabalho repetido: lê o Odoo e inclui na previsão o IVA e as retenções estimados, com a data de vencimento real. Se tiver várias empresas no grupo, faz empresa a empresa.

Um mês com números

PME fictícia, Oficinas Serra do Vouga, Lda., 14 pessoas, regime mensal, ano civil. Com 60.000 € de vendas por mês fica acima do limiar dos 650.000 € de volume de negócios e cai, por lei, no mensal.

Janeiro:

O que sai da conta à volta de 20 de março pela declaração de janeiro:

E ao mesmo tempo, todos os meses:

Se foi pondo cerca de 5.359 € de IVA de parte à medida que faturou em janeiro, o pagamento de março deixa de ser notícia. Caso contrário, março junta na mesma semana o IVA de janeiro, as retenções de fevereiro e a Segurança Social de fevereiro.

Como encaixar na previsão a 13 semanas

Numa previsão semanal, cada obrigação fiscal é uma linha com data. Se a sua previsão de tesouraria a 13 semanas não mostra a Autoridade Tributária e a Segurança Social com as datas certas, está incompleta. Na prática gosto de ter duas linhas: “imposto reservado no mês” (o que você vai pondo de parte) e “imposto pago” (o que sai mesmo). A primeira ensina o esforço. A segunda, o impacto.

Quando montar a sua previsão de tesouraria do zero, a linha de impostos é a segunda a bloquear, logo a seguir aos salários. O resto pode mudar uma semana. Isto não.

Indicadores que avisam cedo

Dois KPIs de tesouraria para a gestão ajudam muito aqui. O saldo mínimo projetado para os próximos 90 dias. E o rácio entre caixa operacional e próximo pagamento fiscal. Se no fecho de fevereiro a caixa operacional for menor do que o IVA estimado de maio, o momento é agora, não em abril. Fale com o contabilista, acelere cobranças, peça plano prestacional se encaixar, atrase uma compra que não seja urgente.

O plano prestacional existe e, dentro de limites, é concedido. É uma rede de segurança, não uma estratégia.

Perguntas frequentes

Posso saber o IVA a pagar antes de fechar o trimestre?

Pode, mês a mês. O IVA liquidado é dado no dia da fatura emitida. O dedutível, no dia da fatura recebida. Com a contabilidade em dia, o fecho mensal dá uma estimativa muito próxima do número final.

E se um cliente pagar tarde e eu ficar sem caixa para o IVA?

Em Portugal o IVA é devido na emissão da fatura, salvo se estiver no regime de IVA de caixa, que tem limites. Se faltar caixa, peça plano prestacional à AT antes do prazo e negoceie com fornecedores. Não entregar o IVA no prazo gera juros e coima rápido.

O pagamento por conta de IRC vai à previsão mesmo sem saber o lucro?

Vai. Os três pagamentos por conta de IRC (31 de julho, 30 de setembro e 15 de dezembro) são calculados a partir da coleta do exercício anterior. O seu contabilista dá-lhe o valor logo no início do ano fiscal. Fixa-o na previsão e ajusta se o exercício em curso mudar muito.

Vale a mesma folha para um grupo com várias empresas?

Vale, se a montar empresa a empresa e depois consolidar. Cada entidade tem o seu NIF, o seu regime e o seu calendário. Operações intra-grupo geram IVA liquidado numa e dedutível na outra, no grupo quase se cancelam, mas em caixa cada empresa paga do seu banco.